

Memória
José Agostinho Baptista

É de ti que eu falo
hoje
quando
todos os pássaros emigram do outono
para os beirais destruídos
quando os olhos cegos de conhecerem as margens
se fecham devagar
é de ti que eu falo.
Lembras-te?
Era janeiro e eu vinha como quem desce.
A casa tinha janelas azuis e à volta
um tempo de febre e canções longínquas
Estávamos sós
Lembras-te?
Então o pai atravessa o cais
aí paravam os estios da ilha
os ventos do atlântico queimavam os lábios
e ele dizia:
Cresce filho, corre filho
Para onde irei, para onde?
E ele dizia:
Perdidos foram os teus lugares,
os caminhos íngremes e os contos de terror,
as pedras úmidas onde te sentaste a
falar para o mar.
Lembras-te?
(Em Nome do Pai, pequena antologia do Pai na Poesia Portuguesa, p. 85)

Hoje, paira em meu olhar, uma chuva fina de saudade!
Um carinho especial a você, meu amor, e aos nossos pais.
Feliz Dia dos Pais!
Com amor

![]()
![]()